30 de outubro de 2019

Palco geológico

A espessura da crosta nordestina ajuda a explicar os constantes tremores de terra na região

30 de outubro de 2019 Blog

No raio-x da geologia, a crosta terrestre brasileira revela-se como um extenso mosaico que alterna espaços de origem antiquíssima (maciços de granito) e amplas bacias sedimentares – depressão da superfície formada pelo acúmulo de sedimentos durante milhões de anos. Os terrenos formados durante a Era Cenozoica, iniciada há 66 milhões de anos, são de pequena espessura, mas de ampla distribuição horizontal.

Uma dessas áreas é a Província de Borborema, nome do imenso bloco rochoso que forma a maior parte do território nordestino. “A região Nordeste é um caso especial no Brasil, ela foi a última parte a se separar da África, o que levou ao estiramento da crosta e a criação de vários domínios de tensão na área”, explica Marcos Vinícius Ferreira, pesquisador do Serviço Geológico do Brasil (CPRM).

No mundo, em média, a espessura da crosta é de 40 quilômetros. Em regiões montanhosas, como no Himalaia, chega a 70 quilômetros. No Nordeste, segundo Reinhardt Fuck, geólogo da Universidade de Brasília, a espessura fica entre 30 e 35 quilômetros. “Isso significa que essa crosta foi muito estirada, afinada pelos processos tectônicos, é como se tivesse sido esticada como um queijo derretido puxado pelas extremidades”, explica.

O geólogo da CPRM Vladimir Medeiros compara a crosta do Norte com a do Nordeste, usando referências brasileiras para explicar o conceito.  “Onde há muita chuva, como na Amazônia, a água provoca erosão, tornando o solo mais espesso. Já, onde a rocha aflora, como na caatinga, o solo é mais fino”, ensina.

No Nordeste, também existem diversas falhas que estão ativas como a de Samambaia (RN) – a maior falha geológica do país. Essas combinações bem como o acúmulo de tensões ativas levam ao grande número de eventos que são registrados e, muitas vezes, sentidos pelos nordestinos. “Por exemplo na região de João Câmara (RN) ocorreu a sequência sísmica na década de 80 com o maior impacto à população. E este ano, está ocorrendo um enxame sísmico (grande número de eventos) em Quixeramobim-CE”, enfatiza Marcos Vinícius. Mesmo conhecendo a história geológica do Brasil, os especialistas não podem prever a localização dos abalos sísmicos como os que atingiram recentemente o município alagoano de Rio Largo.

Mosaico de solos

Em Alagoas, a região da Lagoa Mundaú, que banha a capital Maceió, fica sobre uma bacia sedimentar cheia de falhas e fraturas geológicas. Não por acaso, o alagoano de Viçosa Octávio Brandão (1896-1980), em sua clássica obra Canais e Lagoas, escrita entre 1916 e 1917, refere-se a registros de pequenos abalos sísmicos em Maceió e outras cidades no entorno da região lagunar.

Os atuais bairros de Pinheiro, Mutange e Bebedouro fazem parte de um relevo de encosta da Lagoa Mundaú que se formou há milhares de anos, quando o estuário do rio Mundaú se transformou na atual lagoa – na verdade, uma laguna, já que se interliga com o mar.

Ou seja: um terreno sedimentar, sobre uma zona de fratura geológica, com presença de sumidouros (cursos d’ água que penetram no terreno), solo encharcado acentuado por problemas do sistema de drenagem, esgoto e adução – operação de abastecimento que desvia e conduz água na rede -, está exposto a grandes deslocamentos horizontais de terra capazes de provocar danos como o do bairro do Pinheiro. Por isso, apontar o processo de extração de sal como causa principal do fenômeno pode ser, geologicamente, uma simplificação.

Pesquisadores da Universidade de Houston (Texas, EUA) analisaram os dados do abalo sísmico do dia 3 de março de 2018 e indicaram que ele tem característica de terremotos de origem natural – não causada por atividade humana. Simulação realizada pelos mesmos especialistas com base em modelagem geomecânica computacional reforça essa tese. Esses dados revelam, por exemplo, que mesmo que todas as 35 cavidades formadas a partir de poços para a extração do sal-gema em Maceió tivessem desabado, o afundamento máximo do solo na superfície chegaria a pouco mais de meio centímetro (0,6 cm para ser mais exato) – isso, ao longo de um período de mais de 32 anos.

Como o afundamento real – ou “subsidência”, para usar o termo técnico – detectado na região é de 40 centímetros, ou seja, 67 vezes superior ao impacto estimado na simulação, os estudos indicam que algum outro mecanismo não relacionado ao processo de extração de sal-gema pode ter desempenhado papel dominante nos afundamentos.

Mas que mecanismo teria sido esse? Estudos técnicos mais aprofundados poderão responder.

A Rede Sismográfica Brasileira (RSBR) mantém estações no Brasil inteiro para registrar estas atividades. No Nordeste, as estações são mantidas pela UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte) com apoio do Serviço Geológico do Brasil.

Sozinho na paisagem nordestina

Você nem imagina, mas o pico do Cabugi, no litoral do Rio Grande do Norte, é o único vulcão extinto no Brasil que conserva sua forma original intacta. Para alguns historiadores, o “pico-vulcão” pode ter sido o ponto de descoberta do Brasil, em 1500, fato sempre atribuído ao Monte Pascoal, na Bahia. A formação do solo nordestino é mesmo surpreendente.

Pico do Cabugi, RN. (Foto: Luciano Azevedo / Reproduçao)

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